O som do tilintar de talheres e xícaras ecoavam por todo o ambiente. E o cheiro de café - que podia ser sentido ao longe impregnava a tradicional e famosa Cafeteria de São Paulo. De dentro do estabelecimento saíra um homem ríspido e de aparência jovem vestindo um terno preto esbravejando ofensas para o gerente do estabelecimento, devido a longa espera por seu pedido. Acendeu um cigarro, e entre tragadas e goles de café caminhava à passos largos até o seu carro estacionado do outro lado da rua; pisando em uma poça no meio da rua, enxarcando um de seus sapatos de couro; que minutos atrás eram impecavelmente brilhosos. O homem logo tratou de agradecer mentalmente pela sua maré de sorte naquela manhã.
Chegando próximo a Avenida Principal, se deu de enconto com uma fila de carros que parecia não acabar e o som ensurdecedor de buzinas. Seus pés, se mexiam frenéticamente ao lado do pedal de freio, enquanto bufava impacientemente; passando as mãos quase pálidas pelos fios negros de seu cabelo que insistentemente caíam sobre seus olhos. Ele não podia chegar atrasado ao seu destino, era um homem de negócios, e perda de tempo significava alguns zeros à menos em sua conta bancária. Ao longe, avistou um garoto de baixa estatura e vestes simples vindo em sua direção vendendo balas e, logo tratou de fechar as janelas do seu veículo. Atitude em vão, o garoto deu três batidas leves no vidro do carro para chamar sua atenção, Gerard revirou os olhos em sinal de impaciência fazendo gestos com a mão esquerda para que o pequeno moribundo saísse. Minutos depois, o congestionamente finalmente acabara.
Atrasado, resolvera cortar caminho por uma rua quase deserta. Não poupou o acelerador, pois se chegasse um minuto à mais podia por fim a sua carreira de executivo bem sucedido. Acendera mais um cigarro, e logo fez uma curva sem se preocupar em diminuir muito a velocidade, mas logo mudou de idéia ao colidir em um carrinho lotado de caixas e papelão. O homem de cabelos negros depositou sua cabeça sobre seus braços ante o volante e logo abriu a porta do carro para verificar o estrago no para-choque do carro. Agachou-se com olhar de reprovação, passando os dedos pelos fios de cabelo de modo impaciente. A pouquíssimos metros dali, um senhor de vestes sujas e com chinelos de dedo tentava se amparar no seu carrinho derrubado para se levantar. Gerard percebendo o que havia feito, apenas olhou para o velho com um olhar indiferente, levou o cigarro até seus lábios rosados e rachados dando uma última tragada antes de jogar o mesmo no chão, entrar no carro e dar partida.
Por: Dayse Carollina.
Foto: Sem Destino, de Ângelo F. Nuti
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Foto: Sem Destino, de Ângelo F. Nuti







